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ADQUIRA MEU LIVRO DE CONTOS escrito em quarta 10 novembro 2010 20:29
O GIGANTE OU EM RESPOSTA AO ANÃO escrito em domingo 14 junho 2009 21:16
O GIGANTE OU EM RESPOSTA AO ANÃO
De Isaldemir
Nasceu miúdo, um embrulhinho de carne e osso, nem pesava dois quilos. Sumia naquele pano azul de hospital, só se viam o rostinho – à semelhança do pai – e a cabeça com pequenos pelos ralos, dois carocinhos de olhos. Puseram-no num aquário, fraquinho que só ele, respirando por tubo. Apartada do rebento, do outro lado do vidro, a mãe o acompanhava durante os longos meses em que ficou por lá. Foi para casa numa sexta-feira fria, sentiu na lívida face respingos da chuva, era inverno.
Toda a semana marcava ponto no ambulatório. Peso insuficiente, anemia e febre recorrentes, dores nas articulações – meu menino doentinho, ouvia da chorosa mãe. A natureza preguiçosa o obrigava a crescer devagarinho, sempre aninhado nos braços de alguém compassivo, enroladinho feito pacote, somente a carinha de fora. Não sei se sobrevive, parecia lhe vir à mente, em derredor e em bom som, o mesmo pensamento. A todo custo, no entanto, a criaturinha vingou, não morreria.
Infância desperdiçada, de máscara cirúrgica sempre que saía, tamanho o risco de infecção que o tocaiava. Não podia fazer nada, brincadeiras na rua – nem pensar. Na escola, alfabetizou-se ligeiro e fácil, a cognição era proporcional à debilidade corporal, inteligência extraordinária desapercebida por todos, em face da relevância que davam ao retardo do seu crescimento. Pequenino, escondia-se pelos cantos, falava pouco e baixo, olhos no chão, invisível e inaudível. Os colegas de turma, da mesma idade, cresciam muito mais rápido e se divertiam no recreio arremessando-o numa competição cruel no campo de futebol, cujo vencedor era quem o lançasse mais distante. O pequeno e frágil menino retornava ao seu lugar na sala de aula, todo sujo de areia e com o semblante acinzentado da nuvem que o acompanhava sempre, desde o dia em que nascera.
O convívio social ficou insuportável para aquele ser que se mantinha apeado no desenvolvimento físico e alijado no relacionamento com o mundo, com dez anos parecia ter cinco. Aos quinze, ainda jogado longe pelos colegas, era nanico e raquítico, entretanto não tinha os traços característicos de anão, parecia mais um bibelô desses de menina. Se na escola era boneco e motivo de galhofa, em sua família era reticência e silêncio, assunto-tabu nas reuniões de família, trancado no seu quartinho e longe dos olhos daqueles que cresciam. A mãe continuava a lastimar o destino do filho; o pai, que nunca participara de sua vida ou o aceitara, separou-se na primeira hora que teve e não voltou mais. Melhor que fosse um marginal, um bandido sanguinário, mas que crescesse como gente normal, o pai chegara a dizer antes de partir.
A mãe, os professores, a psicóloga e quem mais se ocupava dele notaram que a mudez tomara conta da pobre criatura. Ninguém mais aguentava conviver com aquele minúsculo personagem calado e triste, diferente e sem importância. Podia morrer o miseravelzinho, o pensamento inconfessável do pai ainda ecoava nos sonhos tormentosos da mãe; no fundo queriam matá-lo, infinitos golpes de lâmina afiada, como tenazes a aferroar-lhe a já torturada consciência. A própria coisa acabaria por si só fazendo o favor para todos, cortando as varetas dos pulsos. Sobreviveria, é verdade – oh Deus sempre sádico! A tentativa vã da morte, trunfo maior dos deuses sobre as suas finitas criaturas, não aconteceria com ele por causa do seu ínfimo tamanho, mas sim porque se apaixonara por uma moça, pequena como ele e com o igual desprezo por sua figura, tal qual o de todos que o conheciam.
Quando completou dezoito anos, aparentava ter dez anos apenas, foi aí que começou a crescer desembestado e de súbito a ganhar uma beleza tão fascinante quanto facínora. A última pessoa que teria de ver em vida era o pai. Quando começou a crescer e não parar mais, o mundo e todos os habitantes passaram a ser muito pequenos para a sua estatura. Todos aqueles que o humilharam foram reduzidos ao rés do chão. O gigante, que um dia fora tão insignificante, a todos esmagou, um a um, os que o lançaram longe na areia suja do campo de futebol e da vida. Tornou-se temido e poderoso, bandido e sanguinário como pretendera a reza dos seus mais chegados. Fortaleceu-se ainda mais e ganhou envergadura, não pararia mais de crescer, sempre para o alto, para o céu, para as estrelas e para os confins do universo. Conquistou respeito por todo canto, contudo, com o tempo, como crescia sem cessar, a infinidade de amantes e seguidores fanáticos sumiu diante do monstro, ficaram muito pequenos e desapareciam de repente de sua vista.
Não havendo mais ninguém para dar sentido àquilo tudo que lhe ocorria, buscou enfim o pai, seu criador, aquele único mais alto que poderia existir no mundo. Com as suas mãos espantosas, levantou-o acima da cabeça, como se ele, o filho, fosse o pai, e o pai fosse o filho. A mãe, pequena que sempre foi, já sumira como os outros e não mais existia para impedi-lo de seu intento. O mundo era então microscópico e desde sempre estava condenado ao fim pelo homem que não pararia nunca de crescer.
O pai implorou para não ser esmagado como um piolho qualquer. Enquanto o apertava, a criatura gigantesca sentia a nostalgia da infância que não tivera e a saudade do tempo em que ainda era pequeno como todos os seus semelhantes, contudo agora só crescia e era gigante e poderoso, nada mais podia mudar enquanto esmagava o pai com as próprias mãos. Fazendo assim, alguma coisa de sua vida pequena – quem sabe? – ainda existiria nele, porém, mesmo sendo ele o gigante, jamais ao certo saberia.
13/06/09
FOTO DA MAIOR TORCIDA DO PLANETA escrito em sexta 05 outubro 2007 11:45
POEMA SEM TÍTULO escrito em quinta 04 outubro 2007 00:03
"Em minha poesia me escondo.
Sem rosto, camaleônico.
Sem corpo, sem sexo.
Mas nunca oco.
Nenhum poeta é oco"
Ontem, estive contigo.
Qual uma máscara de teatro,
Tu me encaravas.
Tal louco, tal se mostrava
A lucidez de teu semblante.
E tu gesticulavas, fazias imaginar culpas,
um som gutural se desprendia.
Entre nós, havia uma mesa:
De um lado, tu; eu do outro lado.
Ao fundo, uma luz escura pairava, parada.
Por sobre meu dorso encurvado,
Violeta amarelada, violenta...
Em volta, uma platéia de ninguém repleta
A olhar-nos como se pudesse ter olhos,
Apenas centelhas esparsas,
Estrelas de um universo inatingível.
De súbito, tu serenavas.
Séculos eram nada diante
Da arrogante calma daquele instante.
Os sentidos se retezavam,
Quando tu me arrebataste.
Íamos eu e tu ad infinitum, subindo, subindo, subindo...
E tua ambição de Deus parecia não findar.
Quando enfim o ar negou-se vital,
Tu estancavas no topo do maior prédio
Da principla avenida do mundo.
Lá embaixo, cabeças aos milhares, pequenas,
Como uma vaga, a realidade.
De tua boca jamais ouviria tal exortação,
Todavia criaturinhas não ouviam...
Num assalto de decepção,
Tu te precipitaste sobre mim
E, com faca cega, me imolavas, me rasgavas
em dois mil e quarenta e oito pedaços...
- Agora, vão notar a verdadeira vida!
E me soltavas no ar, livre, homem, fragmentado.
E eu caía lentamente sobre a calçada,
Sobre cabecinhas da movimentada via,
Na hora plúmbea da volta e da ida,
Mas todos desviavam dos meus despojos,
Crentes que assim
Livravam-se do próprio rosto...
MUSEU VIRTUAL escrito em segunda 13 agosto 2007 18:54
AUTO-RETRATO DE VAN GOGH, APÓS DECEPAR A PRÓPRIA ORELHA.
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